Transformações de Zacarias a Paris

Nunca sei o que vou ouvir quando falo que moro em Paris. Mas são sempre extremos. É uma das cidades que ninguém gosta mais ou menos. Há quem se empolgue e se emocione, cheio de lembranças; outros com cara de apaixonados que suspiram, pensando no dia em que a visitarão; uns que te olham como se você fosse milionária, sem saber quantas baguetes de dois euros você come por semana para economizar; e um monte que faz cara de fome e diz que odiou tudo o que viu nos três dias em que correu desesperadamente entre a Torre Eiffel (“nossa, ISSO é a torre?”) e o Palácio de Versalhes (“ah, até que esse portão dourado é legal”).

Paris sofre com os clichês que toda cidade ilustre ganha com o tempo. O marketing turístico vende uma imagem que se mescla à moldada pela nossa imaginação por meio de filmes, livros e fotografias, que supostamente nos mostram tudo a ser visto. Chegando ao destino, alguns o compreendem e deixam suas percepções ir além, mas tem gente que não chega nem perto de ter uma percepção. E isso não é questão de turista. Você pode morar a vida inteira num lugar sem conseguir desvendá-lo.

Tudo bem que a torre Eiffel não tem mil metros de altura. Mas ela tem 324, meu amigo. Que castelinho de areia você já construiu que chegasse perto disso? Aquela estrutura não foi montada por acaso, só pra você fazer um book de fotos diante dela. Ela tem história. Paris transborda memórias. Ela e qualquer canto do mundo. Todos os lugares representam ou representaram algo para alguém. E acredito que só vamos realmente vivê-los e ganhar o direito de julgá-los a partir do momento em que conhecermos os porquês dessas pessoas.

Para mim, Caramuru, uma vila no interior do interior de São Paulo, é um dos lugares mais incríveis do mundo. Lá fica a fazenda do meu tio Kato, onde eu passei parte da minha infância e onde encontro o melhor bolo de milho do mundo. Digo o mesmo para Zacarias, que provavelmente poucos de vocês terão o prazer de conhecer, assim como o Caramuru. Nessa cidadezinha de pouco mais de 2 mil habitantes fica o rancho dos meus pais, uma das melhores definições de paraíso que eu já encontrei. Ainda não vi nenhuma revista indicando um pôr-do-sol tão lindo quanto aquele que cai no rio Santa Bárbara.

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O pôr-do-sol no rio Santa Bárbara, lá nos confins de Zacarias. Coisa linda, que faz doer a saudade.

bolo de milho e delícias da fazenda

Bolos de milho e curau preparados pela minha prima Elaine, no Caramuru.

Não importa a localização no mapa, tento sempre ficar atenta às vidas que estão nos lugares. São elas que transformam a viagem e nós mesmos. Mas não julgue a França pelo garçom mal humorado que quase cuspiu no seu prato. Fiz amigos franceses mais simpáticos do que muitos brasileiros que já acho pura simpatia. É nesses que vale a pena focar e, por incrível que pareça, podem ser a maioria. Eles me apresentam todos os dias o país em que escolhi morar por um tempo.

3 thoughts on “Transformações de Zacarias a Paris

  1. Para mim, esse foi o melhor post até agora! Amo ver como você tenta encontrar beleza em tudo o que vê. Também, em Paris não é difícil. E pelo jeito, nem em Zacarias, que você nunca me levou! hahaha

    Beijos,

    Ma

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