Dublin: aprecie sem moderação

Sobre a velha história de descobrir a essência dos lugares, acho que captei a de Dublin no finzinho de janeiro. Estávamos eu e meu namorado no Gaiety Theatre, assistindo ao musical Rat Pack. Naquela noite, devíamos ser os únicos fãs de vinte e poucos anos do trio Sinatra-Martin-Davis na platéia, lotada de cabecinhas brancas. Eis que as cortinas se fecham e dá-se início a um pequeno intervalo. Eu, malandra que achava que era, penso “nossa, vou correr pro banheiro antes que essas senhoras façam fila por lá” (desculpem, mas não há bexiga apertada que seja solidária com velhinhos). 

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Foto ruim, mas dá pra ter uma ideia de quantas cabecinhas brancas

Ligeira, peguei meu rumo, lançando olhares para trás a fim de analisar a concorrência. Senti a alegria da vitória quando cheguei e as três portas estavam escancaradas, só me esperando. Bobinha. Na saída, encontro meu namorado inquieto. “Vem, Ana, temos pouco tempo”. Ele me arrasta até o outro lado do salão, por uma porta meio escondida, a partir da qual já dava pra escutar um burburinho alto de risadas e copos trincando.

Era o bar do teatro. Nele, vi refletido o tumulto que imaginava encontrar no banheiro de mulheres poucos minutos atrás. Todos aqueles senhores e senhoras setentões pra mais, virando o meio litro de seus copos de Guinness às pressas, antes que o espetáculo recomeçasse. Eles tiveram uns dez minutos pra dar conta do recado. E não fizeram feio.

Confesso que fiquei em choque, segurando a pinte que pegamos pra dividir e estávamos penando pra finalizar. Olhei bem para aquelas velhinhas de meia-calça, óculos de miopia e cabelo estilo vovó mandando ver na breja. E pensar que no banheiro eu já estava arquitetando um plano para a fila da pipoca. Decidi naquele momento que tentaria fazer igual a elas até o fim da vida, se meu fígado permitir.

E foram nesses dez minutos de intervalo que senti bem forte a essência de Dublin (antes, só conhecia a fama). O combustível da cidade é a cerveja, de preferência Guinness. Eu já estava lá há uns dias e havia conhecido no mínimo uns três pubs. Havia reparado na presença de todas as faixas etárias (com mais de 18, claro). Todo mundo com sua pinte, escolhida entre as dezenas, às vezes centenas, de opções de cerveja expostas no balcão. É a cultura da happy hour, que dura até as primeiras horas da madrugada.

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Créditos: Felipe Fel (www.fel360.com.br)

Não é legal ver alguns bêbados caídos na rua e dando trabalho, e isso se vê muito por lá, a qualquer hora do dia (tem muito turista metido nessa história também). Mas é inegável o fato de que os irlandeses bebem muito bem, não só muito.

Se eu tivesse um conselho a dar sobre uma viagem a Dublin, seria: escolha pelo menos um pub por dia. Não tem problema se for os mais turísticos do Temple Bar (inclusive o maior deles, homônimo), porque até eles recebem sua parcela de irlandeses. Se tiver cerveja boa – pago uma pinte pra quem não achar –, tá sempre valendo.

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Foto clássica do Temple Bar

Meu pub preferido até agora: Cobblestone. Tem boas opções de cervejas e cidra, mas o diferencial fica com a música. Todos os dias, à tarde e à noite, grupos de músicos se reúnem na parte da frente do bar para tocar seus instrumentos despretensiosamente. O som é geralmente instrumental e típico da Irlanda, com acordeões e violinos. Mais irlandês, impossível.

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Grupo de músicos no Cobblestone

One thought on “Dublin: aprecie sem moderação

  1. Loira eu quero ser igualzinha essas velhinhas de cabelos brancos e tomando com certeza umas brejas, rsrsrs

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